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Mas… quando é o melhor momento para desfraldar?

Muitas e muitas vezes recebo essa pergunta: afinal, quando é o melhor momento para retirar a fralda da criança?

Bom, podemos começar a falar sobre esse assunto lembrando que para ele não existe receita, mas sim cada criança com suas necessidades e particularidades.

Há, sim, um melhor momento para retirar a fralda para a criança, mas esse momento é único para ela e é preciso saber identificar seus sinais.

Nesse artigo, gostaria de compartilhar com você alguns sinais que poderá ir avaliando em seu filho para fazer uma leitura global do momento de desenvolvimento em que ele está e, assim, ficar mais seguro para decidir sobre a retirada das fraldas.

Lembre-se que mais importante do que todas as informações compartilhadas aqui é escutar e observar a sua criança, seu momento de desenvolvimento, suas conquistas motoras e cognitivas, estando atenta(o) para separar aquilo que é expectativa e ansiedade dos adultos das necessidades reais da criança.

Para muitos pais, retirar as fraldas é uma experiência difícil, muitas vezes antecipada e gerando muitos escapes, às vezes em locais públicos e que geram constrangimento para adultos e crianças.

Para algumas famílias a retirada das fraldas cria quase que uma batalha, regada a muito cansaço e exaustão.

Como se não bastasse, também é difícil lidar com as expectativas a autocobranças sobre esse processo, além das intervenções que às vezes outros familiares fazem (com a intenção de ajudar) mas que acabam contribuindo para criar um clima de ansiedade para que a fralda seja tirada o quanto antes. 

Há uma linha mais antiga de pensamento em que retirar as fraldas antecipadamente seria sinônimo de desenvolvimento precoce da criança, enquanto a não retirada das fraldas seria um atraso para seu desenvolvimento.

E eu preciso lhe dizer que isso não é verdade: esperar o tempo da criança para iniciar o desfralde não atrasa seu desenvolvimento, pelo contrário, faz com que a criança se sinta protagonista do seu processo, e fique mais confiante.

Até porque o número de escapes nesse caso costuma ser muito, muito menor, e a criança se orgulha por isso, além de demandar muito menos por parte dos adultos da casa.

Para orientar os pais no tema do desfralde eu me baseio na concepção de Emmi Pikler, médica pediara húngara e uma importante referência em minha prática com bebês e suas famílias.

Para ela, existem dois caminhos principais pelos quais o desfralde pode acontecer: o Controle de Esfíncter Passivo e o Controle de Esfíncter Ativo.

No Controle Esfincteriano Passivo o desfralde é entendido como um condicionamento do corpo da criança a partir da vontade do adulto.

Por exemplo, em algumas famílias, quando a criança completa 2 anos o adulto toma a decisão de colocar a criança no pinico ou vaso sanitário e controla o tempo de espera até que a criança eventualmente faça xixi ou cocô.

Quando acontece, o adulto mostra sua felicidade e entusiasmo, e quando não acontece o adulto se mostra desapontado.

A criança pode passar o dia todo sem fralda, mas é sempre o adulto quem precisa controlar o tempo, lembrá-la de ir ao banheiro, levá-la, sentá-la… enfim, fazer todos os movimentos por ela, deixando-a em um lugar mais passivo.

Na minha experiência, no entanto, treinar ou condicionar os esfíncteres da criança não deve ser o objetivo do processo, mas sim escutar e observar a sua criança, e sua necessidade.

Quero dizer com isso que o processo do desfralde deve partir da iniciativa da criança, do quanto ela está madura e pronta para o processo, e não do desejo do adulto, ou seja, a concepção de Controle Esfincteriano Ativo.

Para isso, primeiro é importante aguardar o tempo de maturação fisiológica da criança (sistema motor e nervoso), pois antecipar esse tempo é colocar a criança em uma situação mais desafiadora do que seu corpo está pronto e, portanto, não favorece seu desenvolvimento.

Na minha experiência atendendo famílias em escolas e em consultório, essa diferença é fundamental porque coloca o processo do desfralde no colo da criança – e deixa os pais mais liberados e confortáveis para acompanhar seu filho.

Acompanhar cada família nesse percurso e ir testemunhando desfraldes confortáveis para crianças e adultos, esperando o tempo da criança e  com pouquíssimos escapes, é uma alegria muito grande para mim.

Por isso, a seguir, vou compartilhar com você alguns saberes que vão ajudá-lo a intervir no momento certo com sua criança, sem antecipar aquilo que ainda não está pronto.

É importante escutar a criança e seu momento de desenvolvimento e, para isso, alguns indicadores podem ajudar bastante a guiar nosso olhar:

  • A criança tem maturidade dos esfíncteres a ponto de conseguir segurar o xixi por um tempo? (Por exemplo, faz xixis mais espaçados e em maior volume);
  • A criança tem maturidade motora para subir escadas, se sentindo segura?
  • A criança consegue diferenciar o xixi do cocô, antes de vê-lo? (Se sim, ela está conquistando uma percepção corporal que é um importante indicador);
  • A criança avisa quando a fralda está cheia ou fez cocô? Ela se incomoda com as fezes?
  • A criança tem autonomia para tirar e vestir suas roupas?
  • A criança se interessa pelo banheiro e vaso sanitário? Ela verbaliza que tem vontade de tirar a fralda?
  • A criança já consegue se referir a si mesma na primeira pessoa “EU”?

Se, ao observar sua criança, a resposta foi sim para a maioria dessas perguntas, é um sinal de que o processo de desfralde de sua criança começou – mas não necessariamente já é hora de tirar a fralda, mas sim de procurar sentir o momento em que a criança está pronta ou quando ela mesma solicitar.

No Controle Esfincteriano Ativo o objetivo é dar à criança o tempo necessário para amadurecer física e emocionalmente, até que ela possa ir conquistando a autonomia do processo, conforme sua própria vontade e ir desfrutando do sentimento da conquista real, o que lhe confere uma percepção prazerosa de que é capaz.

Quando isso acontece, é esperado uma postura ativa da criança em:

  1. reconhece a vontade de fazer xixi ou cocô;
  2. conseguir parar a brincadeira e ir ao banheiro;
  3. tem autonomia para tirar a roupa, fazer o xixi ou cocô, se vestir, e dar a descarga;
  4. lava as mãos e deixa o banheiro.

Lógico que o adulto acompanha a ida ao banheiro, porém a criança vai mostrando sua autonomia em fazer todo o processo.

O processo de desfralde costuma levar vários meses e é um percurso de idas e vindas.

Não se preocupe se notar algo como um “retrocesso” pois eles são esperados e não invalidam o percurso que já está sendo construído.

O importante para a criança é continuar encontrando no olhar dos pais a aposta de que ela vai conseguir, sem exigir mais do que ela pode oferecer naquele momento. 

E lembre-se, quanto mais madura e pronta a criança estiver para iniciar o processo de desfralde, em seu próprio ritmo e a partir de sua vontade, mais rápido, confortável e tranquilo será o processo, tanto para a criança como para seus pais.

Com carinho,

Terapeuta Ana Payés