Famílias e crianças na quarentena

A pandemia causada pelo novo coronavírus vem trazendo muitas mudanças no cotidiano das crianças e suas famílias.

Com o necessário período de isolamento social, houve a interrupção abrupta do atendimento escolar e da convivência com a família mais ampla, amigos e vizinhos.

Os cuidados e a atenção às crianças, que antes eram compartilhados por uma rede de suporte maior, agora ficaram concentrados em uma ou algumas pessoas da família.

Sobrecarregados e com diversas preocupações, mães e pais se viram de uma hora para outra tendo que dar conta da atenção às crianças, das demandas escolares, do trabalho doméstico e também do trabalho fora de casa… são muitas coisas ao mesmo tempo!

Por um lado, adultos mais cansados e preocupados e, por outro, crianças demandando mais atenção e cuidado – pois também se encontram irritadas, assustadas e frustradas pelas mudanças que aconteceram em sua rotina.

Soma-se a isso que, com a nova dinâmica em casa, diminuiu também o espaço para que esses adultos fiquem sozinhos e tenham um momento de individualidade, de descanso e autocuidado, o que também é importante…

Ou seja, o desafio vem sendo imenso e muitos pais vem se sentindo mais estressados, irritados, angustiados, ansiosos, com alteração no padrão de sono, o que é compreensível tendo em vista todo o contexto.

O momento agora requer o cuidado de si e das relações familiares. Ter paciência e tolerância com relação a si mesmo também vem sendo muito importante, pois não é possível dar conta perfeitamente de tudo.

Nesse artigo, gostaria de compartilhar um pouco a respeito da importância da rotina (possível) e sobre a questão do uso aumentado das telas.

Muito tem se falado sobre a importância de tentar encontrar uma rotina nessa quarentena, mas gostaria de começar dizendo que a melhor rotina para sua família é aquela que foi possível construir.

Aquela rotina idealizada não adianta muito se for inalcançável nesse momento – e as famílias não estão precisando de mais uma coisa para se sentirem cobradas.

Mas, por que a questão da rotina é tão importante nesse momento?

Colocar alguns marcadores de tempo ao longo do seu dia tende a ter um efeito tranquilizador, pois tudo fica mais “previsível” para as pessoas que compartilham o cotidiano, adultos e crianças.

Com isso, quero dizer que: corpo e mente se acalmam sabendo o que vem na sequência.

Esse é um jeito de se proteger contra sintomas relacionados ao estresse e ansiedade.

Se possível, procure encontrar horários para as refeições, para acordar e dormir.

Organizando esses horários fica mais fácil ir separando o restante do tempo para as demais necessidades da família como as tarefas da casa, o trabalho, as atividades das crianças e também o lazer e o descanso.

Para as famílias com crianças em casa, gostaria de dar duas dicas que podem ajudar a diminuir a agitação e ansiedade e melhorar a qualidade do sono.

Uma dica é tentar reservar um tempo do dia para movimentar o corpo, de preferência de manhã – quando as crianças tem muita energia.

Movimentar o corpo é importante para os adultos e é uma necessidade real das crianças.

Dentro das possibilidades de cada lar, talvez incluir desafios como passar por debaixo de objetos, dançar uma música ou mesmo fazer ginástica e alongamentos junto com a criança.

A outra dica é tentar preparar o sono com um tempo de relaxamento antes de dormir, com meia luz, sem telas e sons baixos.

Pode ser uma hora interessante para contar uma história para as crianças.

Com menos luz e estímulos, o corpo já começa a embalar-se para o sono restaurador, tão importante para pais e crianças agora.

Por último, não se cobre muito.

Mesmo com uma estrutura de rotina, sabemos que no dia a dia será preciso ser um pouco flexível – e está tudo bem!

A melhor rotina para sua família é aquela que consegue acolher as suas necessidades e cuidar das relações dentro de casa.

Já sobre as telas (celulares, computadores e televisões), não há como negar que elas vêm sendo nossos aliados para minimizar os desafios do isolamento social.

Com as telas, conseguimos nos manter mais próximos de familiares e pessoas queridas, dentro do que as atuais condições permitem…

Na verdade, essas ferramentas vêm sendo a principal forma de cuidarmos da nossa rede de sustentação emocional fora de casa, tão importante nesse momento!

E também a forma como muitas escolas encontraram para manter o vínculo com crianças e famílias.

Por isso, é compreensível que as famílias estejam sendo mais flexíveis quanto à exposição das crianças às telas nesse momento – quando antes, essas mesmas famílias costumavam limitar muito mais esse acesso.

Ainda assim, é importante estar atento ao tempo em que as crianças ficam diante das telas, contrabalançando com possibilidades de livre brincar fora do mundo virtual.

Não tenha receio dos momentos de tédio e ócio, eles também fazem parte da infância e convidam a criança a exercitar a sua criatividade!

Ainda sobre as telas, pode ser interessante também avaliar o tempo e horário de exposição às notícias jornalísticas, tanto para crianças como para os adultos.

Assistir as notícias a noite, por exemplo, pode levar a um estado de alerta e apreensão que tende a dificultar o preparo do corpo para o descanso da noite.

Por último, gostaria de lembrar que nesse período de isolamento pode ocorrer o agravamento das experiências de sofrimento.

Se você sentir necessidade de apoio diante de situações muito desafiadoras, ou se as mudanças de comportamento ganharem intensidade, com irritação, muita sensibilidade, alterações de sono e alterações bruscas de humor, peça ajuda, compartilhe com outras pessoas e considere procurar por suporte emocional.

Você não precisa passar passar por isso sozinho.

Com carinho,

Terapeuta Ana Payés