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Sobre puerpério, culpa, medo e a maternidade possível

Oração da mãe possível

Eu me liberto de todas as promessas que fiz na gestação

Aceito usar fraldas descartáveis, Não estar feliz sempre

Querer jogar tudo para o alto e sair correndo sem direção

Eu me liberto de cozinhar todos os dias, de não ter a casa impecável

De às vezes não ter a roupa limpa

Eu me entrego ao choro dele porque também não sei sempre o que fazer

Me liberto de ter resposta pra tudo, estar no controle e deter o poder

Eu agradeço todas as vezes que não sou forte, Que me deixo ser cuidada

Eu aceito a Mãe que eu posso ser hoje, agradeço a de ontem e abraço a que está por vir.

Priscila Obaci: Poesias do pós-parto.

Sempre fico muito tocada quando leio esse poema da encantadora Priscila Obaci, o qual compartilho aqui com vocês. A experiência de construir-se mãe é única para cada mulher e exige muitas transformações em meio a um turbilhão de sentimentos e descobertas do puerpério.

A palavra puerpério vem do latim:

Puer = criança e Parere = dar à luz.

Chamamos de puerpério o período em que as transformações no corpo da mulher ocasionadas pela gestação e parto retornam a seu estado anterior.

Ele se inicia com a expulsão da placenta e não tem um término definido a priori para todas as mulheres, dependendo muito de como ela irá vivenciar esse momento.

No puerpério, muitas são as transformações psíquicas e corporais na mulher: o bebê até então imaginado agora é um bebê real em seus braços; a extrema dependência desse bebê convoca a mãe a construir um novo lugar simbólico junto a ele.

O novo e desconhecido a acompanham enquanto vai descobrindo aos poucos sobre o bebê e sobre ela mesma, mãe dessa criança.

Há também os ecos da experiência de parto ressoando fortemente nesses primeiros momentos com o bebê, e o peso de uma eventual experiência de parto ruim/desrespeitosa pode sim trazer alguns ruídos para esse momento já tão sensível.

Em seu corpo, há também muitas transformações, como as mudanças hormonais, a involução do útero e o processo de início da lactação.

Sobretudo nesse momento de pandemia do novocoronavírus, viver o puerpério na quarentena não é fácil; sem rede de apoio, muitos “pais recém-nascidos” na pandemia ficaram isolados com seus bebês.

São muitas as transformações que acontecem ao passar de um estado de espera pelo bebê (até então imaginado) para um bebê real em seus braços.

O puerpério convoca uma experiência de descoberta profunda: tanto sobre bebê  quanto sobre a mãe possível, e tudo isso em meio a um turbilhão de sentimentos, alguns bastante comuns às “mães recém-nascidas”.

Alívio, cansaço, dúvidas, medos, angústias…

Medo de não ser capaz de suprir as necessidades do bebê.

Medo de não saber lidar com o novo ser e o desconhecido dessa experiência, muitas vezes duvidando de si e fazendo comparações com todas as outras mães.

Medos e ansiedades relacionados com a expectativa pessoal de amamentação.

Uma alta expectativa interna e também das pessoas do entorno para que tudo seja lindo e dê tudo certo, romantizando bastante esse momento que deveria ser apenas de apoio, respeito e legitimação da experiência profunda de transformação no puerpério.

Contar com uma rede de suporte que a permita sentir-se cuidada e amparada certamente a deixará em melhores condições para estar com seu bebê por inteira e vivenciar esse momento de uma maneira mais leve, acolhendo a maternidade possível.

E a rede de suporte começa com o casal, um sendo apoio para o outro.

O casal que acabou de ganhar seu bebê também encontra suporte em uma rede de apoio mais ampla, como familiares, vizinhos, profissionais de saúde, amigos antigos e amigos que não eram tão próximos mas se tornam muito próximos em função da gestação e chegada do bebê.

A boa mãe não é a mãe perfeita.

O bebê não precisa de uma mãe perfeita, mas sim da mãe humana que pode estar com ele, olhá-lo, cuidá-lo e ensinar que ser humano é muito maior e mais complexo e mais bonito do que a maternidade romantizada.

Não existe um jeito certo de ser mãe, mas sim um jeito que faz mais sentido para você e seu bebê.

Deixo um verso de Manoel de Barros para terminar:

“Quem anda no trilho é trem de ferro, sou água que corre entre pedras: liberdade caça jeito.” (Matéria de Poesia).

Com carinho,

Terapeuta Ana Payés