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E como fica o casal depois que o bebê chega?

O casal que ganha um bebê atravessa muitas experiências novas e desafiadoras que são únicas desse momento do ciclo de vida da família.

Ainda que cada um deles tenha procurado se preparar e conte com uma boa rede de apoio, há algumas coisas que serão descobertas ao longo do caminho, de modo que nenhum pai ou mãe pode estar totalmente preparado.  

Com a chegada do bebê em casa, há uma nova rotina que precisa ser construída.

As tarefas se multiplicam e cada casal precisa negociar e dividir o compartilhamento das tarefas e cuidados da maneira como melhor satisfaz suas necessidades.

Mãe e pai se deparam com novas responsabilidades e o bebê os faz perguntar muitas vezes: como cuidar de um serzinho tão pequeno e dependente?

Ao mesmo tempo, ter um bebê faz com que mãe e pai se lancem a processos subjetivos de construção da parentalidade, com muitos convites para mergulhos às memórias de infância: de como foram, por sua vez, cuidados, protegidos, amados, embalados.

Algumas lembranças retornam de forma sensível, oferecendo uma oportunidade tão única para se conhecerem e se desenvolverem como adultos – agora pais.

Em certo sentido, a chegada do bebê convida os pais a uma crise pessoal em meio a um momento de aumento de responsabilidades e, para atravessá-la, ambos irão recorrer ao parceiro para encontrar o suporte e apoio necessários.

Mais do que nunca, o casal que ganha o bebê precisará contar com todos seus recursos de comunicação e de apoio mútuo, com a necessidade de aprenderem muitas coisas novas.

Por isso, é normal que o relacionamento se afete de muitas maneiras com a chegada do bebê – e muito frequentemente esse será um momento em que os conflitos que o casal já tinha há muito tempo se revelem mais sensíveis nessa período da história conjugal.

Se você leu até aqui e se identificou, calma.

Todas as relações conjugais sofrem efeitos com a chegada do bebê, e a maneira como você e seu companheiro(a) irão atribuir sentido para essas experiências é única.

Mas, quando o cansaço, sofrimento e angústias vão se tornando muito grandes e vão afetando todas as relações familiares, esse é um indicativo importante de que procurar por ajuda profissional, como a terapia, pode ser importante para vocês.

Nesse artigo, vou compartilhar com você alguns pontos que costumam ser bastante sensíveis para as famílias que acabam de ganhar seu bebê.

1. Quando a idealização e as expectativas da maternidade e paternidade são muito difíceis de atingir

Muitas vezes a mãe, o pai ou ambos trazem consigo uma visão mais idealizada de como seria a vida em família no pós-parto, recheada de muitas expectativas.

E, quando o bebê chega, pai e mãe se deparam com um bebê real que não corresponde ao bebê imaginado –  na realidade, essa seria uma tarefa impossível, nenhum bebê no mundo jamais conseguiria corresponder.

Quando o bebê real chega aos braços dos pais-recém nascidos, há, de certa maneira, um estranhamento daquele pequeno ser e cada um dos adultos vai elaborando a sua maneira as diferenças que o bebê vai revelando.

Essa elaboração traz certa tristeza e dor, que variam muito para cada adulto, mas que é muito importante pois abre espaço para conhecer o bebê que ali está, assim como para viver a maternidade e paternidade possível.

2. Sobre como o casal divide as tarefas e os cuidados cotidianos

Dar banho, cozinhar, alimentar o bebê, embalar o sono, limpar e guardar as roupinhas, levar ao pediatra….

Muitas vezes os cuidados com o bebê e com a casa não são divididos de maneira equivalente no casal.

E, frequentemente é a mãe que fica bastante sobrecarregada por elas – resquícios de uma herança cultural que atribuiu às mulheres mais responsabilidade pela educação e cuidado das crianças ao longo da história.

Mesmo nos casais em que ambos possuam suas carreiras já consolidadas, a chegada do bebê muitas vezes vai revelando uma nova divisão de tarefas em que existe por um lado a super responsabilização das mães por essas funções e, de outro lado, a desobrigação/liberação dos pais, e essa situação muito frequentemente desperta conflitos.

Além disso, muitas vezes o casal não consegue se comunicar bem sobre o tema do compartilhamento das tarefas e cuidados, e com isso se torna mais difícil chegar a uma divisão que faça mais sentido aquele casal, com suas especificidades.

Muitas vezes as mães se queixam de que gostariam que o parceiro participasse dos cuidados sem que elas tivessem que pedir ou conversar francamente sobre a questão.  

É certo que atualmente caiu por terra a ideia de que o cuidado com o bebê e com as tarefas domésticas deveriam ficar a cargo da mãe: atualmente caminhamos cada vez mais para o reconhecimento de que no projeto do casal sobre ter filhos, as responsabilidades e cuidados são compartilhados a dois.

Não há uma divisão a priori ou receita.

No entanto, é importante lembrar que para alguns casais a divisão que fará mais sentido por vezes não é aquela que corresponde a 50% das tarefas, pois às vezes mãe e pai sentem facilidades/afinidades que fazem com que o casal chegue a outras construções possíveis sobre como compartilhar essas tarefas.

No entanto, é importante que essa construção contemple ambos e que a divisão encontrada seja igualmente valorizada.

E que tanto mãe quanto pai possam ter um momento exclusivo de atenção com seu filho em suas rotinas.

3. Sobre como o casal vai construindo seu próprio modelo de educação (com limites e regras), a partir dos modelos que herdaram de suas famílias de origem

Cada um no casal tem uma história em sua família de origem e traz modelos sobre o que significa ser um bom pai ou mãe e como deve ser feito o trabalho de educar e dar limites para seus filhos.

Tanto pai quanto mãe terá a chance de ir reescrevendo algumas formas de agir com seus filhos, resgatando partes dos modelos recebidos e modificando outras partes.

No entanto, certamente algumas diferenças vão surgir no casal, pois os modelos recebidos são sempre distintos, com ideias diferentes sobre quando ser rígido ou flexível, o que significa disciplina e o que é negociável e inegociável na educação de uma criança.

Haverá muito trabalho a ser feito no casal para se comunicar e negociar essas questões de forma a construir um novo modelo que faça sentido tanto para o pai como para a mãe, que será um pouco diferente dos modelos que cada um herdou de seus próprios pais.

O melhor, nesse caminho, é que o casal cuide muito bem de sua comunicação e que tenha sempre um momento longe da criança para se escutar, ajustar expectativas, procurar pelos consensos e bancar juntos as decisões.

4. Maneiras diferentes de cuidar e demonstrar afeto com a criança

Essa é uma questão muito comum para  pais e mães e se relaciona com o item 3, acima.

Conforme cada um no casal vai conhecendo sobre a maneira que o parceiro cuida da criança e como demonstra afeto, é natural que exista estranhamento em muitos momentos.

Afinal, cada um aprendeu de um jeito único a respeito do que é cuidar, amar e proteger uma criança.

Há muitas maneiras possíveis de amar e cuidar de uma criança, e o que pode parecer um descuido para um, pode significar apenas um ponto de vista diferente para o outro.

É muito importante que o casal possa conversar e escutar sobre essas diferenças na forma de cuidar.

Muitas vezes, o que era um estranhamento sobre a forma como o outro cuida, passa a se tornar cada vez mais uma falta de segurança na forma do outro agir, acreditando que o parceiro não realiza tão bem determinado cuidado.

Para alguns casais isso é sentido pelo parceiro como uma desqualificação da sua maneira de fazer. Isso pode trazer ao casal uma dinâmica em que o parceiro vai se sentindo menos legitimado em sua forma de ser e com menos espaço para cuidar e estreitar vínculos com a criança.

5. Intimidade e sexo após a chegada do bebê

Com a chegada do bebê diminui o tempo para que o casal possa cuidar dos momentos de intimidade. E quero dizer intimidade e não apenas sexo: pois sexualidade é muito maior do que o sexo. Há muitos motivos que contribuem para a diminuição da libido da mulher, veja artigo sobre sexualidade no pós-parto.

Não só o tempo é mais escasso como o cansaço dos dois também é grande, e esse impacto sobre o casal muitas vezes traz bastante ansiedade e frustração .

Será que algo se acabou ou se rompeu? Será que não terá reparação ou perdi a vida que tinha antes para sempre?

Calma. Lembre-se que para a intimidade ser prazerosa e instigante no casal é preciso cuidado, diálogo e tempo.

Cada casal vai encontrando quais são os cuidados que a relação pode se beneficiar e que são possíveis dentro da realidade de seu dia a dia.

E isso começa com muita conversa e com o desejo de procurar escutar o ponto de vista do parceiro(a).

E talvez, ir considerando alternativas: quem sabe recorrer a rede de apoio para que o casal tenha um jantar por mês?

Considerar contratar uma faxina de vez em quando para ter uma tarde de descanso juntos?

6. Como o casal lida com as interferências da família mais extensa

Quando o bebê chega para o casal, toda a família mais extensa vai se afetar de muitas maneiras.

Mães viram avós, irmãs viram tias, pais viram avôs, e assim por diante.

Desde esses novos lugares, a maioria dos familiares vai demonstrar vontade em ajudar, participar e se envolver com o bebê – e nesse momento os palpites e sugestões podem afetar o casal que está adaptando sua rotina e inaugurando seu lugar de pai e mãe, que ainda é novo.

A forma como cada casal lida com a participação da família mais extensa varia muito: para alguns casais é importante cuidar quando as interferências começam a afetar de maneira ruim esses primeiros meses com o bebê, para que sintam confortáveis em tomar as decisões como pais e mães que são, mesmo quando pensam diferente do restante da família.

Nesse campo não há receitas e cada casal vai encontrando uma forma de ir cuidando dessas relações e lugares familiares que são novos, de forma a se fortalecer em sua família ao mesmo tempo em que fazem o exercício de ir se diferenciando dela, ao tomar decisões e posicionamentos diferentes.

Receber suporte da família extensa pode ser muito importante, assim como se sentir valorizados e legitimados como pai e mãe que acabaram de ganhar um bebê, que estão aprendendo e tomando suas próprias decisões.

E lembre-se:

Nesse campo, é preciso muito diálogo, escutar-se e rever as divisões feitas sempre que preciso.

É importante que ambos possam estar confortáveis com a divisão particular que foi construída no casal sem se justificar em preconceitos de gênero, do que a sociedade habitualmente atribui a mulheres e homens.

Se você sentir necessidade de apoio diante de situações muito desafiadoras, peça ajuda, compartilhe com outras pessoas e considere procurar por ajuda profissional.

Você não precisa passar por isso sozinho (a),

Conte comigo,

Terapeuta Ana Payés